É, hoje foi legal… Apesar dos pesares. Pelo menos, mesmo tendo que agüentar o estresse dos jogos e da semana cultural, as pessoas mais, ér… , estranhas, tímidas, anti-sociais e com um toque filosófico, como eu, conseguiram perceber algumas coisas no mínimo interessantes.
Eu sempre soube que pensar demais em tudo atrapalhava bastante “a minha vida”, mas confesso que nunca percebi que isso poderia atrapalhar tanto num jogo de vôlei. E quando essa suspeita surge, vem o treinador e diz que eu preciso me concentrar no jogo. Tudo bem, não foi um símbolo de fogo no céu, mas foi um sinal. Até ele percebeu. Ele devia pensar que eu estava desconcentrada por causa da torcida vibrante, estremecedora e incrivelmente barulhenta que o terceiro ano havia montado na arquibancada contra nossa torcidinha de calouros (que aliás não era lá uma torcidinha, mas ainda era de calouros), mas não foi. Não totalmente. Aproveitei a deixa e percebi que pensar em você ou no que você e outras pessoas podem achar de mim também me atrapalha nos estudos, ou quando eu estou perdendo tempo andando pelos corredores, ou conversando com alguém, ou em casa assistindo tv, ou ainda ouvindo música. E é involuntário, não parece algo que eu possa evitar assim, do nada. E agora que eu vi: eu poderia ter jogado muito melhor na hora do jogo. Pensando assim, me pergunto o que me impedia de me esforçar ao máximo mesmo, e idéias do tipo “seu eu pudesse voltar no tempo…” são inevitáveis.
No banco, vi uma menina torcendo pro nosso time do lado da quadra, perto do rapaz que estava dando apoio, substituindo um treinador que não temos; parecia tão engraçado. Ela fazia mil expressões de felicidade quando o time marcava um ponto, ou mil caretas quando alguém errava. E depois, ela disse com convicção para mim e para as meninas que estavam ao meu lado “vocês vão virar, vocês vão ver!”. Tempo. O time se reuniu com o treinador. Quando ele terminou seu discurso, foi a vez dela. Com uma cara de desapontamento, coberta de inocência, ela disse “poxa meninas, vocês têm que se animar. Vocês estão tristes! Não fiquem tristes. Fiquem felizes, vocês têm que ficar felizes! Correr atrás da bola, não ficar paradas…” e continuou até ser interropida por mais alguém. Mas o que me chamou atenção naquilo foi o fato de ela não ter falado muito em “boa vontade”, mas sim em felicidade. O que, por acaso, são coisas completamente diferentes, você sabe.
Já que eu já estava no banco e não tinha mais como atrapalhar o time pensando na minha vida, me perguntei se aquilo tudo me trazia felicidade. Foi imediato: – Sim, claro, eu sempre gostei de vôlei. Então por que ali, naquele momento, eu não estava feliz? Por que minha mente não estava ali naquela quadra? Afinal, deveria ser um motivo muito forte para me fazer não prestar atenção no vôlei. E sabe o que é pior? Não é. Não é um motivo nem razoável, se você quiser saber a minha opinião. Eu não acho que valha a pena pensar em alguém que não se conhece, torcer para esbarrar com ele nos corredores, esperar um olhar perdido. Não é algo que alguém em sã consciência faria. E lá estava eu, fazendo.
O que me trouxe mais algumas belas conclusões: em todo esse tempo, eu não estava concentrada, não de verdade. Não me envolvi com nada. E quando as pessoas me cobravam envolvimento ou até mesmo responsabilidade, pra mim elas estavam erradas. Era como se eu já estivesse ocupada fazendo alguma coisa. Fazendo nada. Eu só estava, na verdade, fugindo de tudo. Quis uma coisa e foi como se o mundo todo tivesse que parar e esperar eu consegui-la para poder continuar a girar, só que não é bem assim. Percebi que decepcionei algumas pessoas. Me fiz prometer que não ia pensar muito em nada, só me dedicar ao que eu estiver fazendo, em qualquer hora. Desde conversas com pessoas que não sejam aquelas pessoas até jogos de vôlei contra o terceiro ano.
