that’s okay :)

Once Upon a Time

Bem, essa é uma história boba e infantil feita por mim. Acho que não preciso falar que a personagem principal (Sophia) tem muito a ver comigo, e que a história é sim baseada em fatos reais. Não a escrevi para agradar ninguém, e sim para registrar de uma forma diferente muitas situações em que me encontro; é como se assim eu pudesse descrever alguns sentimentos que, em primeira pessoa, eu não conseguiria descrever, meio que levando o leitor a perceber toda a situação em que a personagem se encontra.

A história ainda não está terminada, até mesmo por ser uma espécie de diário para mim, e pretendo escrevê-la até o meio do ano que vem, permitindo que ela registre apenas os meus 15 anos, ou, os 15 anos de Sophia, como queira. 

Claro que se eu resolver terminar a historinha mais cedo, eu termino. Mas por enquanto prefiro mantê-la, por motivos bem pessoais. 

Espero que goste!

Capítulo I. 

Ela era uma menina de cabelos compridos e ondulados. Todos a chamavam de baixinha, mas ela achava alta o suficiente. Ela tinha algumas idéias diferentes sobre a vida. Você pode chamá-la de Sophia.

Ela era uma garota bonita, estava cansada de ouvir isso. Às vezes, olhar para ela se tornava algo intrigante. Era quase inevitável se perguntar no que aquele ser silencioso estaria pensando enquanto parece (apenas parece) escutar o que as pessoas ao seu redor falam. A qual lugar sua mente a estará levando agora, nesse mesmo momento em que ela está sentada com seus amigos? E será que algum dia seria possível vê-la levantando a voz e lutando por uma opinião só dela, sem medo de falhar?

Até ela queria saber. 

“De anjo essa menina só tem cara…” ela havia perdido a conta de quantas vezes teria ouvido isso de terceiros. Às vezes ela ficava imaginando quantas pessoas não se aproximavam dela só por pensar que ela, de alguma forma, as machucaria, trataria mal. O que suas amigas meninas – grande minoria, não me pergunte por que – pensavam dela realmente não importava, ninguém a conhecia tão bem a ponto de poder julgá-la, ou até mesmo entendê-la. E só ouvir alguém dizer que a conhecia já a irritava. Não que ela se permitisse demonstrar raiva, pelo contrário. Na maioria das vezes, Sophia apenas fingia não ter ouvido. 

Capítulo II 

Às vezes ela só queria sumir, ir embora para um lugar que só existia na televisão. Nos filmes antigos, mais especificamente. O que ela mais queria era que sua vida fosse um musical, com músicas dançantes, coreografias bem expressivas e passos já definidos. Ela queria cantar na chuva, ter poderes mágicos, usar vestidos dos anos 20. Ela queria que o mundo tivesse menos pessoas, ou queria simplesmente morar num bairro onde todos se conhecessem.

- Olá padeiro! – ela se imaginava passando pela padaria e cumprimentando o padeiro sem exitar.

- Bom dia, Sophia! – ele responderia.

E a mesma cena se repetiria com o dono da banca de frutas, com o jornaleiro, ou com a senhora que vendia flores, cuja charmosa lojinha de arranjos se encontrava no caminho de sua casa. Ruas de ladrilhos, e não de asfalto. Carros antigos, classudos. Guarda-chuvas charmosos, sem estampas muito chamativas e espalhafatosas. Jardins. Parques com crianças e suas babás, com seus chapeuzinhos requintados e luvinhas que gentilmente seguram seu guarda-chuva sempre próximo ao corpo. Era assim o mundo dela. Feliz, bobo, mas era dela. E ela podia criar o que quisesse. 

Capítulo III – a mudança de cidade. 

Nem sempre ela sabia o que dizer, e muitas vezes preferia ficar calada, apenas observando. Aquilo lhe custaria caro no futuro, mas ela não se importava. Não de verdade. Ela era diferente das outras pessoas, de uma forma especial. Não há como entender se você não a conhece, e dificilmente os que a conhecem a entendem. Continuando a história, aquela menina tinha algo diferente. Ela raramente deixava alguém se aproximar dela, e se isso realmente tivesse que acontecer, aconteceria devagar, do seu jeito. Ela já havia mudado de cidade algumas vezes, a última não há muito tempo, e quando o fizera, deixara todos aqueles que significavam algo para trás. Amigos de infância, declarados irmãos. Velhos rostos, paixões antigas que a deixavam com cara de boba, velhos hábitos, passeios, lugares com lembranças de dias em que tudo parecia fazer sentido. Tudo isso havia ficado para trás.

E o pior é que ela sabia que uma hora ou outra iria se mudar. Ela sempre soube que não moraria lá para sempre, e ela se puniria eternamente por ter se deixado apegar tanto àquela cidade, a todos aqueles sentimentos e significados. Ela nunca mais cometeria esse erro de novo. E agora, mais uma vez, ela sabia que não ficaria nessa nova cidade para sempre. E a escolha de não se apegar demais era feita diariamente. Ela não queria se machucar tanto de novo. Não queria perder mais uma vez a pouca alegria que ela conseguira juntar pelo caminho. Acho que esta é a explicação para ela passar tanto tempo calada, em seu mundo particular. De lá, ninguém nunca poderia tirá-la, e as imagens que ela criou lá nunca se deteriorarão. Aquele mundo era a única garantia de que ela estaria sempre bem, suportavelmente bem, independente do lugar. Independente da cidade. Independente das pessoas. 

Capítulo IV – paixonite. 

Isso não é uma coisa lá muito boa, eu sei. Mas estou apenas narrando essa história, não posso modificá-la.

Às vezes ela cansava sim desse mundo, de ter que se isolar para muitas vezes não sofrer. Frequentemente ela se perguntava se havia perdido o sentido. Mas não. Algo dizia que ele ainda estava lá.

Ela havia cansado de ser racional.

Sophia estava apaixonada. Ou pelo menos achava que estava, enquanto torcia para não estar.

Ela só queria que alguém, nas noites mais frias do ano, estivesse lá. Ela queria alguém que a levasse para longe dali, da forma mais gentil possível. Ela estava cansada desse mundo deturpado.

Sophia queria, depois de tanto tempo, ter uma conversa sincera com alguém. Não sincera por parte dela, isso já era usual. Sincera por parte da outra pessoa. Ela precisava que alguém passasse tranqüilidade para ela, com aquele olhar que poucos entendem, que pode significar tanto “vai ficar tudo bem” quanto “não tenha medo”… Ela desejava profundamente conhecer alguém que conseguisse ver a tristeza por trás de seus olhos, que percebesse a dor que está por trás de seus sorrisos fajutos. Alguém que olhasse para ela e realmente se perguntasse quem ela é, por que ela se esconde, ao invés de criar mil teorias dos demônios que essa carinha de anjo poderia abrigar. Ela queria alguém que lhe perguntasse se está tudo bem, e que realmente quisesse saber a resposta.

E isso tudo parecia estar nos olhos “dele”.

Mesmo que não seja verdade, ela havia percebido que quando ele a olhava, era diretamente nos seus olhos, principalmente enquanto estava distraída. Era como se ele procurasse saber o que se passa, tentasse desvendar o que estava por trás do sorriso esboçado na face triste da menina… E ela aceitava a idéia de tê-lo por perto. Aceitava muito bem. 

Capítulo V - sobre “ele”. 

Sophia não o conhecia. Só sabia o seu nome, o observava de longe. Não podia disfarçar o alívio que sentia quando ele passava e olhava de volta, e sorria, mesmo que talvez ele olhasse e sorrisse só por educação. Ela sabia em qual sala ele estudava, -raramente ela passava por lá- sabia mais ou menos quem eram os meninos com quem ele andava, e o mais importante: sabia que ele tinha uma namorada. Da mesma sala que ele, com amigos em comum, gostos em comum, que antes de ser namorada era amiga. Não tinha como competir com isso, ela sabia.

E Sophia se sentia tão mal quando passava pelo corredor do colégio e eles estavam juntos – o que acontecia quase sempre. “Que inveja…” ela pensava com um olhar triste, e às vezes falava baixinho para as suas amigas, que não entendiam muita coisa.

“Que merda”.

Ela estava mesmo apaixonada. E não ousou contar para ninguém. O que mais falariam dela se soubessem? O que as pessoas iriam pensar? De quais novas palavras ofensivas iriam chamá-la se soubessem que ela pode pensar nela mesma por um instante?

Ah, “um instante”. Era tudo o que ela precisava. Um instante longe dali, longe da frustração de ver todo dia alguém que sequer pensava nela, que sequer sabia de sua existência. Ele deveria ter coisas melhores a fazer, deveria se importar mais em passar tempo com seus amigos, com alguém que realmente o interessasse. Mas e agora? O que ela podia fazer? Havia pouco mais de uma semana que ela tinha descoberto estar apaixonada e ele não saía de sua cabeça. Por mais que ela quisesse, por mais que ela tentasse se distrair, algo acabava lembrando aquele menino. “O que será que ele está fazendo? Com quem será que ele está? Em quem será que ele está pensando?…” ela tinha raiva dela mesma por se fazer essas perguntas, mas não podia evitar. Um hora ou outra, essas perguntas surgiam. Assim, do nada. Quando não eram as perguntas, apenas seu nome aparecia em sua cabeça.

“Bernardo”. Pode chamá-lo assim. Ela não podia evitar se perguntar se ele já havia, algum dia, pensado nela, pensado em conversar com ela, só para ver no que ia dar. Mas a resposta estava óbvia. Ele estava namorando. E isso doía em Sophia. Mais do que deveria. 

Capítulo VI – recesso. 

Aquelas férias – o recesso de meio de ano – vieram em bom momento. Agora Sophia poderia esquecer todas essas perguntas idiotas que atrapalhavam sua concentração em qualquer coisa que fizesse. Ficaria sem vê-lo por duas semanas. Bernardo tinha namorada, não havia batalha para Sophia lutar, muito menos ganhar. Tudo já estava ganho. Sorte da outra menina, da namorada. Agora Sophia tinha que parar de pensar nele. Ela seria uma péssima perdedora se não o fizesse.

E que raio de paixão súbita era essa?

Ela vai sair, vai tentar parar de olhar suas fotos e seguir a vida como era antes, antes de Sophia notá-lo.