Eu já ouvi de tudo. Mas entre esse monte de balela que o povo adora falar, me disseram algumas coisas no mínimo marcantes. Como que mesmo os amigos de infância se separam com a distância, e com o tempo se esquecem. Disseram que só vinte anos depois, quando eles se reencontram numa fila de supermercado, vem aquela sensação estranha, uma mistura de dor e alegria… Alegria por estar revendo uma parte importante da sua vida; dor por estar vivendo a prova de que ela já passou. Eu nunca acreditei. Mas mesmo contra a minha vontade, confesso que hoje acredito.
No meu caso, até que eu gostaria de esbarrar com alguma amiga de infância numa fila de supermercado, mesmo que vinte anos depois, quando já estivéssemos ambas casadas e comprando fraudas pros nossos filhos, mas após algumas mudanças de cidade isso fica meio difícil. Não o casamento, digo. O reencontro.
Fica sempre faltando aquele pedaço, aquela parte que antes aquelas pessoas ocupavam. E se a gente não tomar cuidado, não tem MSN que dê jeito… As primeiras madrugadas que a gente passava conversando sobre os babados mais recentes e seriados de televisão, vão se resumindo a conversas rápidas, na correria do dia-a-dia. Você acaba se sentindo mal quando vai fazer aquele resumão do que aconteceu no seu dia pra contar para aquela pessoa e percebe que na verdade, o resumo tem que ser também sobre o mês passado e o anterior… E as ligações de interurbano que a sua mãe tanto reclamava vão ficando cada vez mais rarefeitas, no final se restringindo apenas a meia hora de conversa nos aniversários e no Natal. Nada mais de conversar deitadas no chão do quintal comendo Trakinas e olhando o céu estrelado que eu não vi mais em nenhum outro lugar…
Você vai vivendo a sua vida, uma tendência natural humana, e quando esbarra com alguém no MSN é como se você acordasse e se perguntasse onde você estava esse tempo todo. Pra aquele grupo de amigas que antes tinha o sonho de morar todas juntas num apartamento no Rio de Janeiro em frente à praia, bem, quatro já mudaram de escola, três mudaram de cidade, e uma está prestes a mudar. Mas quem está contando?
Ta bom, eu estou.
Sem mais delongas, dei essas voltas todas para conseguir explicar o que eu estava sentindo, e voltei a sentir hoje, quando lembrei que é aniversário de 16 anos de uma grande amiga, que me conhece desde que cheguei em Porto Velho, na alfabetização. Uma que eu continuo amando incondicionalmente, e que sempre foi e sempre vai ser o meu exemplo, a minha inspiração. Essa aí da história do Trakinas, que vivia na minha casa, e eu na dela – imagina a alegria que foi quando eu mudei de casa pra um condomínio em frente à casa dela em 2005.
Duas fanáticas por Everwood que passavam a aula de educação física todinha conversando sobre o que o Ephram tinha dito pra Emy, e sobre como tinha ficado o novo corte de cabelo dele na nova temporada. Mil babados, Thiagos e Gustavos à parte, aulas de vôlei à tarde de fachada só pra ficar zanzando pelo colégio, feiras de cultura vestidas de africanas, e a gente se aproveitando por ter que jogar só contra a quinta série nos jogos internos. Sem falar nas nossas andanças pelo centro pra assistir os jogos do time de vôlei das meninas e dos meninos em outros colégios, e as férias de julho do ano passado (2006 ainda é ano passado) que você passou em Manaus, lá em casa… Foi tudo tão bom! Você estava lá em todos os momentos, e mesmo longe eu sempre tive com quem contar. Era pra você que eu reclamava do antigo colégio de riquinho em que eu estudava, e foi com você que eu comemorei quando passei pro Cefet. Sabia que eu nem ia checar o gabarito naquele dia se você não falasse? Eu estava com medo. Morrendo de medo. E chequei enquanto a sua janelinha do MSN estava lá, aberta, ao lado do site com o gabarito.
Histórias não nos faltam, mesmo que elas estejam se tornando menos esporádicas agora, e o importante é que eu as guardo muito bem na memória.
É isso aí Ari, feliz aniversário. Dezesseis anos já, mal dá pra acreditar! Como a gente ta ficando velha hein!
Hoje eu te mandei uma mensagem de cinco páginas pelo celular, apaguei alguns caracteres pra não chegar a seis… Algumas coisas a gente simplesmente não consegue resumir! Logo depois eu tentei te ligar, mas com a correria pros preparativos da festa a minha mãe e as minhas tias acabaram me arrastando pra umas vinte lojas pra escolher os convites… Mas eu ainda vou te ligar, e a gente ainda vai ter muito mais do que meia-hora pra sentir essa tal mistura de dor e alegria e rir muito de tudo que a gente passou, perto ou longe! A última coisa que eu quero nesse mundo é perder contato com você e tudo que a sua amizade significa pra mim. Afinal, já é quase uma década de amizade, e disso a gente não abre mão por nada!
Boa sorte na cidade nova ( São José dos Campos é uma ótima cidade, por sinal, que a sua amiga preocupada aqui pesquisou, ta?
), e mais uma vez, feliz aniversário. Pode contar comigo sempre que precisar.